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EUA: uma eleição de favas contadas?

A aluna de relações internacionais do Ibmec BH e membro do Observatório das Eleições dos EUA, Fabiana Diniz Bastos, fez uma interessante análise sobre as eleições norte-americanas para a coluna do jornalista Mario Schettino Valente, do jornal O TEMPO. Confira a seguir.

Uma eleição de favas contadas? ‘Not so fast’

Nesta coluna, em 25 de março, mostraram-se as vantagens institucionais que Donald Trump, como presidente e candidato incumbente, teria para enfrentar as crises sanitária e econômica que se iniciavam, e como uma eventual percepção positiva de sua liderança pelos eleitores poderia pavimentar o caminho do Partido Republicano para um segundo mandato presidencial.

Passados quase três meses, os norte-americanos iniciam a flexibilização da quarentena, ainda que os números diários de contaminação e de mortalidade demandem prudência. A economia do país mostra indícios de retomada, com a queda no desemprego entre maio e abril de 14,7% para 13,3% – uma boa notícia, mas distante dos 3,5% de desemprego no ano passado. Nas últimas semanas, no entanto, outra questão emergiu para tornar a corrida eleitoral de 2020 ainda mais complexa: as mobilizações de combate ao racismo, sobretudo em relação à brutalidade policial contra minorias étnicas.

Ao se observar o índice de aprovação geral de Trump desde o início das crises, nota-se que a sua aprovação líquida (aprovação menos desaprovação) está caindo, atingindo 12,5 pontos percentuais negativos no início de junho, de acordo com o agregador de pesquisas de opinião do Real Clear Politics. Esse mesmo agregador mostra que, nas intenções de voto, Trump está 8 pontos percentuais atrás do democrata Joe Biden. Aqueles que se debruçam somente sobre esses dados consideram que as eleições são favas contadas e que o democrata comandará a Casa Branca a partir de 2021.

Entretanto, em uma corrida eleitoral é necessário também considerar as percepções dos cidadãos sobre os candidatos, sobretudo as preferências dos eleitores independentes, aqueles que não se identificam com os dois principais partidos americanos, oscilam muito em sua declaração de voto e que correspondem a 29% do eleitorado, de acordo com dados da Morning Consult (MC).

Essa parcela de eleitores é determinante em eleições polarizadas como a de 2020. Compreender as preferências desse grupo é o caminho mais adequado para entender o cenário eleitoral e suas tendências, bem como para evitar interpretações equivocadas, que muitas vezes são mesmerizadas pelos dados sobre intenções de voto e se esquecem da volatilidade dos eleitores independentes, o que pode acarretar análises enviesadas, como aquelas que apontavam, de forma contundente, a derrota de Trump em 2016.

Recentes pesquisas de opinião da MC mostram que a percepção dos eleitores independentes sobre os dois principais candidatos varia conforme o tema e nunca supera 45% de avaliação positiva. Biden é visto como o mais capacitado por esses eleitores em relação a questões de saúde em geral, à contenção da Covid-19, a uma eventual reforma da polícia e ao exercício de liderança em momentos de crise – qualquer que seja ela. Por sua vez, Trump é reconhecido pelos independentes como o mais apto em questões econômicas, como a geração de empregos e a capacidade de comandar a recuperação da economia.

A avaliação dos independentes sobre como ambos têm lidado com as manifestações de combate ao racismo mostra um empate técnico em termos de aprovação, em torno de 20%, embora a reprovação das ações do republicano seja de 40%, ao passo que 43% indicam que não têm opinião ou não sabem responder sobre o democrata. Essa disparidade em relação à desaprovação deve-se tanto à posição de incumbente de Trump quanto a um desconhecimento sobre a posição política e sobre as poucas ações – e oportunidades de ação – do desafiante Biden em relação às manifestações e à brutalidade policial.

As pesquisas de opinião mostram retratos da sociedade em determinado espaço de tempo, contudo elas auxiliam no reconhecimento de tendências dos diversos grupos de eleitores e das oportunidades de crescimento dos candidatos. Na atual conjuntura, os dados indicam que os eleitores independentes ainda precisam ser convencidos.

Fonte: O Tempo

 

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