Efeitos da eleição de SP e RJ para Bolsonaro

O resultado eleitoral em São Paulo e no Rio de Janeiro apresenta dois cenários distintos para o bolsonarismo nas duas maiores cidades do país. Se em São Paulo o candidato apoiado pelo presidente, Celso Russomanno, não conseguiu bom desempenho nos bairros que deram as maiores vitórias para Jair Bolsonaro há dois anos, no Rio de Janeiro, Marcelo Crivella conseguiu manter bases de apoio nos redutos eleitorais do presidente na cidade.

Os dados das zonas eleitorais reforçam a diminuição do apoio a Jair Bolsonaro em bairros mais ricos e a manutenção de sua força nos bairros mais pobres. Em São Paulo, o melhor desempenho do presidente nas eleições presidenciais foi em bairros de classe média ou classe média alta, como Santana, Mooca, Tatuapé, Vila Formosa e Indianopolis. No Rio de Janeiro, por outro lado, a força do presidente foi maior na Zona Oeste, em bairros como Campo Grande e Bangu.

Historicamente, Russomanno sempre teve dificuldades entre o eleitorado mais rico e mais escolarizado da cidade. O resultado reforça que nem mesmo o apoio do presidente contribuiu para uma mudança nesse padrão em bairros onde o presidente teve suas melhores votações na cidade.

Especialista em pesquisas qualitativas e marketing político do Instituto Travessia, Renato Dorgan apontou que o resultado eleitoral em São Paulo indica que o presidente Jair Bolsonaro é apenas uma opção para esse eleitorado e que o voto no presidente é definido muito mais pelo adversário do que por uma aproximação ideológica.

— O Bolsonaro aparenta ser um alternativa para o eleitor de classe média de centro-direita e direita, dependendo do quadro. Se há o Doria ou o Moro com força na disputa, pode ser diferente. Tanto que o Arthur do Val “Mamãe Falei”, que representa o MBL distante do Bolsonaro, é herdeiro dessa soma desse bolsonarismo frustrado  — afirma Dorgan.

Nessas regiões, a indicação é que o voto da direita se pulverizou, favorecendo Bruno Covas e, principalmente, o candidato do Patriota, Arthur do Val “Mamãe Falei”. Em Santana, por exemplo, bairro onde Bolsonaro teve sua maior vitória no primeiro turno na cidade, Arthur superou o candidato do Republicanos com 11% dos votos. Russomanno, 8%. Na liderança, Covas alcançou 37% dos votos no bairro. Na cidade como um todo, Arthur teve 9,78% e Russomanno, 10,50%. Covas ganhou o primeiro turno com 32,85%.

São dados que refletem a movimentação de uma parcela do eleitorado contra o presidente: os mais ricos e os mais escolarizados. Segundo pesquisa feita pelo Ibope na véspera da eleição em São Paulo, entre os eleitores com ensino superior, 55% responderam que o governo Bolsonaro era péssimo. Esse valor, em março deste ano, era de 41%.

Por outro lado, as condições que sustentavam a força de Bolsonaro no Rio de Janeiro parecem persistir.

Seu melhor desempenho em 2018 foi no bairro do Campo Grande, onde conseguiu mais de 67% dos votos no 2º turno contra Fernando Haddad. Neste ano, apesar de ficar em segundo lugar, atrás de Eduardo Paes (DEM), Crivella venceu em três das quatro zonas eleitorais que compõem o bairro que fica na Zona Oeste.

No bairro que sofre com a atuação da milícia e do tráfico, predomina o voto evangélico e de eleitores preocupados com questões de segurança pública.
Ao contrário de outras regiões da cidade, onde o apoio ao atual prefeito se deteriorou após quatro anos de um mandato conturbado, o apoio a Crivella persistiu nesses locais que também deram expressivas vitórias ao presidente Jair Bolsonaro. Há quatro anos, Crivella teve entre 32 e 36% nessa região da cidade. Este ano, ficou entre 28 e 29%.

— O Crivella tem a máquina, é o atual prefeito, é um cantor gospel e tem uma identidade é maior com o bolsonarismo do que o Russomanno. Pesa a questão de costumes, do voto evangélico. Perdeu um pouco de voto porque fez uma gestão ruim e o eleitor, querendo ou não, mora na cidade. Mesmo sendo conservador, mesmo gostando do Bolsonaro, não necessariamente vai votar no Crivella — afirma Dorgan.

A força que Crivella manteve na Zona Oeste não foi percebida em outras regiões. A situação é diferente em outras regiões da cidade como, por exemplo, a zona eleitoral de Del Castilho, onde Crivella teve 43% dos votos válidos há quatro anos, este ano ele teve 22%. No Jardim Botânico, o atual prefeito teve 29% na última eleição, mas apenas 12% neste pleito.

— São Paulo e Rio de Janeiro são bem diferentes. A periferia de São Paulo é bem diferente da periferia do Rio. Assim como a classe média do Rio é mais progressista do que a de São Paulo — explica Dorgan.

Fonte: O Globo

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