Sobre o coronavírus e a liderança em tempos de crise

Por Charlles D’Angelus

  1. A pandemia gerou novos desafios para a liderança política

É bem difícil ser equilibrado onde impera o desequilíbrio, ou a instabilidade. O coronavírus trouxe uma crise inesperada e cheia de insegurança. Parece que estamos vivendo em um filme, uma série de suspense, onde você vai dormir em um mundo e acorda em outro, tudo parece que ficou de cabeça pra baixo em um piscar de olhos.

Infelizmente, não é um pesadelo, é real. Acordamos em um mundo ríspido e que se encontra diariamente em constantes mutações. O alto grau de incerteza gerado por este momento resulta em desorientação, sensação de controle perdido. Pode levar muitos inclusive à doenças emocionais, perda de sentido, entre outras patologias.

O vírus atingiu a tudo e a todos, mostrando mais fragilidades do que fortalezas. Não foi só a fragilidade do sistema de saúde público que ficou escancarada, mas também da economia e principalmente da política.

A escalada do vírus, o número crescente de casos, os óbitos e a sua enorme imprevisibilidade tornaram a resposta de líderes políticos, como governadores, deputados, senadores, vereadores, prefeitos, ministros e até do presidente, algo difícil.

Até hoje muitos políticos cresceram sentados nas sombras de partidos ou sentados à sombra de árvores que seus “padrinhos políticos” plantaram. Em tempos normais a transferência de liderança, como a de votos, é algo mais simples. Mas em tempos extremamente difíceis essas lideranças políticas são forçadas a serem eles mesmos, recorrendo àquilo que os distinguem, como seres singulares, suas crenças e valores.

Especialmente nas horas mais complexas, mais difíceis, os líderes políticos são analisados e julgados sobre como eles agem em relação aos outros e às circunstâncias, mas também sobre quais são as suas orientações de valores humanos, frutos de seus princípios morais e éticos.

Saber reagir ao cenário de crise, portanto, é primordial para que sua vida pública não vá a óbito como infelizmente estamos presenciando o de muitas pessoas. Acredito que já fomos convencidos que o COVID-19 não faz estrago somente na vida das pessoas mais velhas ou com comorbidades, mas, ele atinge a todos. Por isso, é primordial que os agentes públicos e aqueles que estão postulando uma carreira política aprendam a desenvolver as práticas da verdadeira liderança para que possam responder de maneira eficaz a este momento tão complexo.

2. A crise híbrida e a necessidade de mais empatia

Diante de uma crise híbrida mundial a humanidade vive uma fase nova da história, na qual profundas e rápidas transformações se estendem progressivamente por todos os países, em que reescrever a economia, a política, a cultura, a religião e as questões sociais desafiará toda a mentalidade científica moderna, econômica, psicológica e cultural.

Saber liderar e como reagir nesse cenário é primordial. A nova era do coronavírus traz profundos questionamentos e uma perturbação em relação à mudança das condições de vida, levando algumas nações da opulência econômica ao padecimento endógeno frente à insegurança e à desaceleração dos mercados e o derretimento dos ativos e capitais.

Não ter medo de reconhecer que vivemos um momento de crise e que não existem respostas prontas é o primeiro passo para todo grande líder. Ao aceitar o atual cenário, o verdadeiro líder passa para o próximo andar que é tentar formular respostas. Diante do desconhecido, as lideranças políticas devem apreender a formular mais perguntas do que produzir respostas ensaiadas e treinadas em seus discursos.

Muitos líderes governamentais, infelizmente, saíram dessa guerra bem feridos em sua popularidade. E o problema, muito mais do que seus decretos ou atitudes tomadas diante da pandemia, foi a forma que como líderes se comunicaram.

O grande problema de muitos políticos é achar que já viram tudo e sabem tudo. Mas, estamos diante de um problema muito maior que a polarização entre salvar vidas e salvar a economia. Estamos diante de um fenômeno conhecido muito bem pelos analistas e coachs, que é a reatância psicológica: Um estado mental de resistência a um pedido ou recomendação, que ocorre, quando as pessoas percebem que estão sendo reduzidas ou estão perdendo a autonomia de decidirem, por si mesmas, o que é bom e o que é mau.

A maneira que muitos agentes políticos estão se comunicando e a estratégia que estão utilizando para darem suas orientações estão cavando seus próprios túmulos, armando suas próprias armadilhas e estão desintegrando seus sonhos políticos. E engana-se quem acredita que o self-licensing (auto-licenciamento), mesmo havendo crédito por acertos em suas carreiras políticas, poderá blindá-los do estrago que esse vírus ainda causará na vida pública de muitos deles.

A grande virada de chave que será capaz de salvar a vida política desses líderes partirá de uma visão comportamental e de uma mentalidade empática. Sabemos que as pessoas em momentos de guerra, tragédias, pandemias, etc. vivem em um verdadeiro estado de atenção, voltadas à sua própria sobrevivência e necessidades básicas.

Por isso, os líderes devem reconhecer os desafios pessoais e profissionais que as pessoas enfrentam durante este momento, não de uma forma piegas, reducionista, ou dentro de uma visão ideológica. Em uma guerra, escreveu o político e escritor francês, Honoré de Balzac: “Ou o coração se parte ou endurece”. Nesse momento da nossa história, todos os políticos e aqueles que estão postulando assumir cargos políticos, terão a oportunidade de se destacarem verdadeiramente como grandes líderes se agirem orientados por valores humanos, com respeito às pessoas, mostrando que são capazes de serem altruístas, solidárias e que agem com prudência, temperança, sendo orientadas principalmente pela empatia.

Cada vez mais tem se acentuado a divisão política. De um lado os críticos às duras medidas de confinamento, que ironizam o poder de fogo do vírus, minimizando as mortes, atribuindo exageros à mídia e fazendo cálculos de um apocalipse econômico. De outro, reúnem-se aqueles que defendem o isolamento social, minimizando o estrago da economia e aumentando o discurso de pânico, destruição e de extinção dos homens e mulheres com mais de 60 anos. Dois grupos de líderes, com discursos diferentes.

No entanto, nenhum grupo de líderes fez uma única menção verdadeira que expressasse reconhecer que não existiam respostas prontas para enfrentar essa guerra. Em todas as reportagens, entrevistas e postagens em redes sociais que pude acompanhar de vários políticos não consegui observar alguma atitude que expressasse altruísmo e empatia. Garanto que não por má fé, mas é necessário que os líderes políticos entendam que esses valores não brotam dos cargos que assumem, mas devem ser construídos em suas personalidades e no modo de como enxergam o mundo e ainda mais: de como eles enxergam esse tempo de profundas incertezas.

 

3. O coeficiente do novo político 

Subjacente a todas essas realidades e diante dessa reflexão da postura do novo líder político, não podemos ignorar conscientemente os conflitos econômicos e sociais em que estamos e que enfrentaremos após o cessar da pandemia. É necessário que os líderes políticos façam um esforço em conjunto e verdadeiro para que cheguem a uma solução real. A saúde e economia são pautas extremamente importantes e fundamentais e que precisam ser discutidas e tratadas sem achismos, sem ideologia e sem visões fragmentadas.

O gestor político, o líder, que quiser ainda atuar e desenhar estratégias se apoiando, seja na saúde ou na economia, avançará na contramão do que se discute de mais contemporâneo na formação de lideranças. Qualquer traço de visão unilateral, seja de lógica econômico-financeira ou discurso filosófico simplório do valor da vida, trará drásticas consequências.

É, diante dessa radical discussão, diante desses conflitos, sejam eles de ideias, de estilo de vida, de crenças. O que antes era certo agora é errado, o que antes era convicção agora é incerteza. É diante desse fragmentado cenário que nasce a figura do novo líder.

Um novo agente público que sabe e tem a tranquilidade de dialogar com os extremos, que possui a capacidade de estabelecer um ecumenismo político e partidário, isto é, não pedem a outros políticos que reneguem a própria história ou suas convicções, não criam uma camisa de uniformidade, mas promovem o encontro e despertam a responsabilidade da missão que o ser político exige de forma clara e não vaga.

Se no mundo corporativo se fala muito em coeficiente de intelectual (QI) e coeficiente emocional (QE), existe hoje um coeficiente muito mais poderoso na política que se chama coeficiente de equilíbrio (QL).

A nova liderança política estará ligada intimamente com esse coeficiente de equilíbrio. Diante de um mundo que dá passos largos a uma profunda transformação, principalmente no campo social e econômico é o surgimento de líderes políticos com alto grau de equilíbrio que será capaz de promover e conquistar a confiança senão de todos, mas da grande maioria da população.

Pior do que todo o efeito destruidor que o coronavírus irá deixar no Brasil, é o desequilíbrio e a falta de bom senso de alguns dos agentes políticos o efeito mais dolorido que o povo irá sentir.

Agentes políticos que não mantém o equilíbrio do pensar, falar e agir são capazes de entrar em colapso diante de qualquer acontecimento. Somente os agentes que ampliarem seu coeficiente de equilíbrio se tornarão capazes de fazer aquilo que a grande parcela das pessoas anseia encontrar em um político nesse momento de crise e desesperança: o equilíbrio entre o falar e o fazer, o equilíbrio entre a resposta e o silêncio.

O equilíbrio torna-se, então, o novo hábito que um político veterano ou mesmo um neófito precisaram vestir daqui para frente se quiserem crescer e aumentar suas chances de serem escutados, admirados e seguidos.

O coeficiente de equilíbrio é o eixo de estruturação nessa nova era inóspita. O novo líder político só será capaz de tomar as decisões adequadas, resistir a todos os tipos de pressões, emoções e paixões, se aumentá-lo.

“O preço da liderança é o Equilíbrio.” (Winston Churchil)

“Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade.” (Renato Russo)

 

(*) Charlles d´Angelus é HEAD e CMO da D´Angelus Business and Life, Coach Político e Especialista em Mobilização e Treinamento. Escreve todas às quintas-feiras no portal Eleições Brasil.  charlles@dangelus.com.br

 

Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do portal Eleições Brasil, sendo de inteira responsabilidade de seus autores.

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